"Com que idade a gente morre?"
Você tinha setenta e oito anos e um pouquinho quando me perguntou isso.
Estava doente, talvez com medo de ser hospitalizado. Tivemos que te levar, a contragosto, mesmo assim.
Fico pensando no que se passava pela sua cabeça naquele instante.
Entre tantas incertezas, eu sorri — só pra interromper um choro não autorizado — e disse:
_ Não sei. Mas, se quiser, vou contigo. Pra você não ir só.
Nós dois sorrimos. E choramos.
Sabíamos, sem dizer, que eu não poderia cumprir uma promessa dessas.
Você jamais deixaria.
Só por cima do seu cadáver, ou algo do gênero.
Mas o que fazer, se eu herdei de você esse jeito de encarar problemas sem solução com algum humor?
Desde então, pensei — e volta e meia repenso — na sua pergunta.
Talvez a idade da morte seja como um aniversário: um ciclo que se constrói com cada dia vivido, bom ou ruim.
E talvez a gente desconfie quando ela se aproxima, porque as pessoas passam a agir diferente, como quando tramam uma festa surpresa.
Ou talvez seja como naqueles dias onde a gente esquece do próprio aniversário, e chegue leve, distraída, sem fazer alarde, e a gente nem perceba o instante exato.
Pensando no enfim, percebi que a sua idade de morte será uma coisa completamente distinta pra você e pra mim.
Pra você, terá sido toda a sua vida.
Pra mim, será a minha vida até ali. E, então, o depois.
Até que a minha própria idade chegue.
E talvez... talvez minha memória nunca me permita acreditar que a sua chegou.
Porque isso significaria esquecer o som da sua risada, o toque do seu cabelinho branco e macio entre meus dedos, o seu assobio distraído de hinos ao longo do dia.
O que eu quase já sei responder é que, quando você se for, vou lembrar de ti na idade em que me deixou te conhecer: a idade de ser meu pai.
E quando, enfim, a tua idade chegar, seja ela qual for, preciso te dizer:
muito mais marcante que o dia da tua morte foram os teus dias, que me deram grande parte das melhores memórias da minha própria vida.
